sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ESTRANHEZA ÍNTIMA



Uma distância maior do que o espaço entre nossos corpos se infiltrou entre nós. Uma distância impossível de ser rompida por um olhar ou por qualquer outro gesto.  A palavra não vinha à boca, e as mãos eram inúteis uma vez que anuladas por não saberem o que fazer ou o que podiam fazer.

Com olhar, gestos, boca e mãos reprimidas, essa distância só aumentava, agigantava-se e tomava conta de todo o quarto e do resto dos cômodos que continham a nós e a nossa distância esmagadora. Era como se habitássemos dois distintos continentes ainda que estivéssemos compartilhando a mesma cama e desprezando os mesmos lençóis no mesmo chão que nossos pés pisavam apesar de realmente distantes. Nossas roupas estavam mais próximas que nosso sexo e nossos pensamentos ninguém sequer sabia onde estavam.

Era como se cada passo dado em direção um do outro, naquele momento, não houvesse existido, ou pior, como se estivéssemos indo em direções opostas. Não sabia quem era aquele com quem troquei versos de amor e fiz, outrora, planos seguros de um futuro alegre. O presente era diferente, movediço. Nada de nossos outros dias se apresentava nesse dia no qual a estranheza talvez fosse a única palavra mais forte do que a distância a se incutir em nossos momentos, nesse ponto, já incompreensíveis. Parecia que não fazia sentido estar ali. Parecia que a lembrança de alguns ontens acumulados era mais confortável do que enfrentar essa realidade esquisita.

Os carinhos pareciam ter sido proibidos, apesar de não sabermos por quem, obedientes os fazíamos não existirem apenas. Tudo isso tornava essas horas dispensáveis, mas elas existiam e se impunham sobre nós mesmo assim. Frágeis, deixávamos ser levadas por esse amontoado de distâncias como quem espera o outro que, tal o que espera, de forma vã e tola, nada faz. Atrapalhávamo-nos em nossa inércia sem beijos ou abraços de reconciliação. E a distância já era toda labiríntica e cada vez mais difícil de ser transposta.

O calor e o suor podiam até servir de subterfúgios, mas nenhuma desculpa era pedida ou necessária. O domingo se acabava nessa distância que já somava muitos quilômetros. Nem a chuva que começava a cair doava mais leveza a esse quadro desigual.
Sem voz, seguíamos distantes sem saber onde essa distância iria dar. Deixávamos essa cena se compor irretocável e nós nos perdíamos, quiçá para sempre, sem nem ao menos sabermos o porquê (Nívia Maria Vasconcellos).

domingo, 3 de janeiro de 2010

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

RÉQUIEM PARA UM ANO MORTO

Mulher Chorando Com Lenço (1937) - Picasso

2009 foi, para mim, minhas tias mortas, meu pai morto e um grande amor indo embora. Foi o câncer, a desilusão e a fadiga. 2009 foi, para mim e os meus, simplesmente, a vontade de 2010 chegar...

*Quadro de Pablo Picasso: "Mulher chorando com lenço"

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

LIDIANE NUNES NO BLOG "CAVALEIRO DE FOGO"


VONTADE DE FALAR ATRAVÉS DA ESCRITA
– LIDIANE NUNES nasceu em Salvador, Bahia, em 1983. Com apenas três anos de idade, mudou-se para Feira de Santana, onde vive até hoje. É professora de literatura, graduada em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e cursa, atualmente, a Especialização em Estudos Literários, pela mesma instituição. Mantém o blog: http://nuneslidi.blogspot.com/. Lidiane, singela e cristalina no falar e na escrita, é otimista e não tem pressa. Compreende que “um poema não conseguirá mudar o mundo, mas pode tocar um leitor, pode tornar alguém mais sensível, mais humano”. Vamos, então, conhecer um pouco mais dessa moça tímida que, quando sua voz quer calar, é dominada “por uma vontade de falar através da escrita”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Com tanta coisa legal pra se fazer por aí, por que escolher logo a literatura, e ainda mais a poesia, um ofício solitário, que não dá dinheiro nem visibilidade e, quando muito, desperta a inveja dos medíocres?

LIDIANE NUNES – Acredito que não foi uma escolha. Na verdade, quando me dei conta já estava apaixonada pela literatura, pela poesia. Decidi cursar Letras, porque gostava da área, mas foi na UEFS, durante as aulas de Mayrant Gallo, que descobri, de fato, a minha paixão pela arte literária. Comecei, então, a rabiscar algumas linhas - que nem ouso chamar de versos - sem pensar em ser escritora, em ter visibilidade, nada disso. Não nego que, hoje, penso em publicar. No início não. Escrevia apenas por um impulso, por uma vontade de falar através da escrita, quando a minha voz queria calar. Ainda continua sendo assim, com a única diferença de que agora não quero apenas falar (escrever), quero ser ouvida (lida). Nem que seja pelos meus poucos amigos e mesmo sem ganhar dinheiro. É como uma necessidade.

JIVM – A poesia serve para alguma coisa? O escritor – o poeta – desempenha algum papel na sociedade?

LN – No meu primeiro semestre de Letras, na disciplina Teoria I, discutiu-se sobre a função da arte, tendo como base textos de teóricos como Fischer, Faustino, Eliot, entre outros. Estes defendem que a arte possui quatro funções primordiais: a de prazer, deleite; a de aprimoramento da língua; a documental; e a de transformação social. Alguns colegas meus, até hoje, discordam dessa assertiva. Eu concordo, plenamente. Acredito que um genuíno poeta desempenha, sem dúvida, um papel na sociedade. Claro que um poema não conseguirá mudar o mundo, mas pode tocar um leitor, pode tornar alguém mais sensível, mais humano. E ainda que assim não fosse, pelo simples fato de nos despertar prazer, de nos permitir sentir de outra forma, a poesia valida a sua existência. Não consigo imaginar um mundo sem poesia, sem literatura, sem arte. Seria muito mais opaco. E vazio.

JIVM – Como é, de repente, se descobrir uma escritora? Olhar para trás e reparar o caminho difícil e doloroso que mulheres como Florbela Espanca, Marina Tsvetáieva e Emily Dickinson percorreram não lhe assusta?

LN – Ainda não me descobri uma escritora. Há algum tempo, estou começando a desconfiar. Sempre escrevia e deixava na “gaveta do computador”. Nunca mostrava a ninguém. Tinha um grande receio. Não sei bem do quê. Até que, certo dia, comecei a mostrar os meus escritos para alguns amigos. Eles elogiaram. Porém, para mim, eram suspeitos. Resolvi enviar meus poemas para Mayrant Gallo. Ele gostou de alguns, de outros não. Na semana seguinte, enviei mais um poema, que foi publicado em seu blog, na época, o Contramão. Fiquei muito contente. Segui escrevendo. Este ano, enviei um poema meu para uma amiga escritora e ela disse que eu tinha que perder o medo de publicar, que precisava me arriscar. Suas palavras me marcaram. Passei a postar alguns versos em meu blog e tenho recebido muitos comentários. Por isso, principio a me perguntar: será mesmo que levo jeito para a coisa? A resposta positiva me assusta, sim. O novo sempre me assusta. No entanto, não quero e nem consigo fugir. Então, vou me deixando ser levada, sem pressa...

JIVM – Você lê muito? Considera-se uma grande leitora? Quais são seus livros e autores referenciais?

LN – Leio muito. Amo o ato da leitura. Mas não sei se sou uma grande leitora. Cada dia que passa, percebo o quanto preciso ler ainda. Toda vez que converso com os meus amigos, que também gostam de literatura, saio com uma lista enorme de livros que não desbravei. Sei que ninguém pode ler tudo, entretanto, necessito organizar melhor o meu tempo. Sempre acho que tenho que ler mais. Meus autores referenciais são muitos. Sou apaixonada por Machado de Assis. Admiro bastante Clarice Lispector, Fernando Sabino, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Albert Camus, Kafka, entre outros. Atualmente, estou adorando ler contos. Ando fascinada por este gênero. Gosto de ler as obras de escritores baianos – ou radicados na Bahia – também: Renata Belmonte, Eliana Mara Chiossi, Ângela Vilma, Mônica Menezes, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Nívia Maria Vasconcellos, JIVM e outros. E tenho um vício chamado blog. Acesso este espaço quase diariamente. Posso ficar muito tempo sem atualizar o meu, mas não passo mais de um dia sem visitar os blogs dos meus amigos. A leitura, para mim, é essencial. Se não leio, sinto que está faltando alguma coisa. Então, me lembro o que é. E abro um livro. Na ausência deste, ligo o computador. Sem Internet? Entro em desespero.

JIVM – Você tem uma grande paixão pelo cinema. A sétima arte influência de que maneira na sua produção poética?

LN – É, tenho mesmo uma grande paixão pelo cinema. E esta, também, foi influência do Gallo. Acho que o citei em quase todas as respostas. Inevitável. Ele é um eterno mestre e um grande amigo, que sempre me incentiva a continuar escrevendo e me indica bons livros e bons filmes. Depois que participei de uma oficina de cinema que ele ministrou na UEFS, passei a assistir aos filmes com uma visão diferente. Comecei a perceber que cinema é poesia, é metáfora, é arte, é uma das mais belas formas de narrativa. Mas não sei mesmo precisar a influência do cinema na minha escrita. Parece que percebo mais em relação ao assunto. Às vezes, assisto a um filme e, então, tenho a idéia de escrever um poema, um miniconto. Sempre adorei esse dialogismo entre as artes. No entanto, acredito ainda que o cinema me influencia na forma. Só não sei como. Na concisão, na fragmentação, talvez.

JIVM – Já tem algum livro esboçado? Quais os projetos? E o que mais?

LIDIANE NUNES – Não. Nenhum livro esboçado. Escrevo pouco. Tenho poucos poemas. Alguns minicontos. Nem sei se daria para publicar ainda. Fui convidada para participar de uma antologia de minicontos, prevista para ser publicada em 2010. Aceitei. Agora, estou aguardando. O meu único projeto, no momento, é continuar lendo, escrevendo, postando em meu blog e caminhando, sem saber exatamente para onde. No mais, gostaria apenas de agradecer muito pelo convite, pela oportunidade de participar da coluna Sangue Novo. E aproveito para deixar um forte abraço para os que acabaram de ler estas minhas palavras.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

PROJETO TRAVESSIA

sábado, 21 de novembro de 2009

VERSÃO

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira

Abaixo, uma versão de Nívia Maria Vasconcellos para o poema Consoada de Manuel Bandeira:

CAÇOADA
Ao meu pai, in memorian

A indesejável das gentes chegou
(Duríssima... nem um pouco caroável).
Eu tive muito medo,
Não sorri e nada disse a iniludível.
O dia não foi bom, a noite não aconteceu.
(Só vieram dela seus sortilégios)
E nada estava pronto: campo, casa.
A mesa não estava posta,
Mas ela veio mesmo assim.
Assim, com tudo fora do lugar...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

APARTAMENTO 201

AUSÊNCIA...