VISUALIZAÇÕES

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

RÉQUIEM PARA UM ANO MORTO

Mulher Chorando Com Lenço (1937) - Picasso

2009 foi, para mim, minhas tias mortas, meu pai morto e um grande amor indo embora. Foi o câncer, a desilusão e a fadiga. 2009 foi, para mim e os meus, simplesmente, a vontade de 2010 chegar...

*Quadro de Pablo Picasso: "Mulher chorando com lenço"

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

LIDIANE NUNES NO BLOG "CAVALEIRO DE FOGO"


VONTADE DE FALAR ATRAVÉS DA ESCRITA
– LIDIANE NUNES nasceu em Salvador, Bahia, em 1983. Com apenas três anos de idade, mudou-se para Feira de Santana, onde vive até hoje. É professora de literatura, graduada em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e cursa, atualmente, a Especialização em Estudos Literários, pela mesma instituição. Mantém o blog: http://nuneslidi.blogspot.com/. Lidiane, singela e cristalina no falar e na escrita, é otimista e não tem pressa. Compreende que “um poema não conseguirá mudar o mundo, mas pode tocar um leitor, pode tornar alguém mais sensível, mais humano”. Vamos, então, conhecer um pouco mais dessa moça tímida que, quando sua voz quer calar, é dominada “por uma vontade de falar através da escrita”.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Com tanta coisa legal pra se fazer por aí, por que escolher logo a literatura, e ainda mais a poesia, um ofício solitário, que não dá dinheiro nem visibilidade e, quando muito, desperta a inveja dos medíocres?

LIDIANE NUNES – Acredito que não foi uma escolha. Na verdade, quando me dei conta já estava apaixonada pela literatura, pela poesia. Decidi cursar Letras, porque gostava da área, mas foi na UEFS, durante as aulas de Mayrant Gallo, que descobri, de fato, a minha paixão pela arte literária. Comecei, então, a rabiscar algumas linhas - que nem ouso chamar de versos - sem pensar em ser escritora, em ter visibilidade, nada disso. Não nego que, hoje, penso em publicar. No início não. Escrevia apenas por um impulso, por uma vontade de falar através da escrita, quando a minha voz queria calar. Ainda continua sendo assim, com a única diferença de que agora não quero apenas falar (escrever), quero ser ouvida (lida). Nem que seja pelos meus poucos amigos e mesmo sem ganhar dinheiro. É como uma necessidade.

JIVM – A poesia serve para alguma coisa? O escritor – o poeta – desempenha algum papel na sociedade?

LN – No meu primeiro semestre de Letras, na disciplina Teoria I, discutiu-se sobre a função da arte, tendo como base textos de teóricos como Fischer, Faustino, Eliot, entre outros. Estes defendem que a arte possui quatro funções primordiais: a de prazer, deleite; a de aprimoramento da língua; a documental; e a de transformação social. Alguns colegas meus, até hoje, discordam dessa assertiva. Eu concordo, plenamente. Acredito que um genuíno poeta desempenha, sem dúvida, um papel na sociedade. Claro que um poema não conseguirá mudar o mundo, mas pode tocar um leitor, pode tornar alguém mais sensível, mais humano. E ainda que assim não fosse, pelo simples fato de nos despertar prazer, de nos permitir sentir de outra forma, a poesia valida a sua existência. Não consigo imaginar um mundo sem poesia, sem literatura, sem arte. Seria muito mais opaco. E vazio.

JIVM – Como é, de repente, se descobrir uma escritora? Olhar para trás e reparar o caminho difícil e doloroso que mulheres como Florbela Espanca, Marina Tsvetáieva e Emily Dickinson percorreram não lhe assusta?

LN – Ainda não me descobri uma escritora. Há algum tempo, estou começando a desconfiar. Sempre escrevia e deixava na “gaveta do computador”. Nunca mostrava a ninguém. Tinha um grande receio. Não sei bem do quê. Até que, certo dia, comecei a mostrar os meus escritos para alguns amigos. Eles elogiaram. Porém, para mim, eram suspeitos. Resolvi enviar meus poemas para Mayrant Gallo. Ele gostou de alguns, de outros não. Na semana seguinte, enviei mais um poema, que foi publicado em seu blog, na época, o Contramão. Fiquei muito contente. Segui escrevendo. Este ano, enviei um poema meu para uma amiga escritora e ela disse que eu tinha que perder o medo de publicar, que precisava me arriscar. Suas palavras me marcaram. Passei a postar alguns versos em meu blog e tenho recebido muitos comentários. Por isso, principio a me perguntar: será mesmo que levo jeito para a coisa? A resposta positiva me assusta, sim. O novo sempre me assusta. No entanto, não quero e nem consigo fugir. Então, vou me deixando ser levada, sem pressa...

JIVM – Você lê muito? Considera-se uma grande leitora? Quais são seus livros e autores referenciais?

LN – Leio muito. Amo o ato da leitura. Mas não sei se sou uma grande leitora. Cada dia que passa, percebo o quanto preciso ler ainda. Toda vez que converso com os meus amigos, que também gostam de literatura, saio com uma lista enorme de livros que não desbravei. Sei que ninguém pode ler tudo, entretanto, necessito organizar melhor o meu tempo. Sempre acho que tenho que ler mais. Meus autores referenciais são muitos. Sou apaixonada por Machado de Assis. Admiro bastante Clarice Lispector, Fernando Sabino, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Albert Camus, Kafka, entre outros. Atualmente, estou adorando ler contos. Ando fascinada por este gênero. Gosto de ler as obras de escritores baianos – ou radicados na Bahia – também: Renata Belmonte, Eliana Mara Chiossi, Ângela Vilma, Mônica Menezes, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Nívia Maria Vasconcellos, JIVM e outros. E tenho um vício chamado blog. Acesso este espaço quase diariamente. Posso ficar muito tempo sem atualizar o meu, mas não passo mais de um dia sem visitar os blogs dos meus amigos. A leitura, para mim, é essencial. Se não leio, sinto que está faltando alguma coisa. Então, me lembro o que é. E abro um livro. Na ausência deste, ligo o computador. Sem Internet? Entro em desespero.

JIVM – Você tem uma grande paixão pelo cinema. A sétima arte influência de que maneira na sua produção poética?

LN – É, tenho mesmo uma grande paixão pelo cinema. E esta, também, foi influência do Gallo. Acho que o citei em quase todas as respostas. Inevitável. Ele é um eterno mestre e um grande amigo, que sempre me incentiva a continuar escrevendo e me indica bons livros e bons filmes. Depois que participei de uma oficina de cinema que ele ministrou na UEFS, passei a assistir aos filmes com uma visão diferente. Comecei a perceber que cinema é poesia, é metáfora, é arte, é uma das mais belas formas de narrativa. Mas não sei mesmo precisar a influência do cinema na minha escrita. Parece que percebo mais em relação ao assunto. Às vezes, assisto a um filme e, então, tenho a idéia de escrever um poema, um miniconto. Sempre adorei esse dialogismo entre as artes. No entanto, acredito ainda que o cinema me influencia na forma. Só não sei como. Na concisão, na fragmentação, talvez.

JIVM – Já tem algum livro esboçado? Quais os projetos? E o que mais?

LIDIANE NUNES – Não. Nenhum livro esboçado. Escrevo pouco. Tenho poucos poemas. Alguns minicontos. Nem sei se daria para publicar ainda. Fui convidada para participar de uma antologia de minicontos, prevista para ser publicada em 2010. Aceitei. Agora, estou aguardando. O meu único projeto, no momento, é continuar lendo, escrevendo, postando em meu blog e caminhando, sem saber exatamente para onde. No mais, gostaria apenas de agradecer muito pelo convite, pela oportunidade de participar da coluna Sangue Novo. E aproveito para deixar um forte abraço para os que acabaram de ler estas minhas palavras.

sábado, 21 de novembro de 2009

VERSÃO

CONSOADA

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira

Abaixo, uma versão de Nívia Maria Vasconcellos para o poema Consoada de Manuel Bandeira:

CAÇOADA
Ao meu pai, in memorian

A indesejável das gentes chegou
(Duríssima... nem um pouco caroável).
Eu tive muito medo,
Não sorri e nada disse a iniludível.
O dia não foi bom, a noite não aconteceu.
(Só vieram dela seus sortilégios)
E nada estava pronto: campo, casa.
A mesa não estava posta,
Mas ela veio mesmo assim.
Assim, com tudo fora do lugar...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ânima Trio lança primeiro CD no Cuca

Para quem aprecia boa música e quer conhecer de perto o trabalho da nova geração de artistas feirenses, o show Ânima Trio, com lançamento do primeiro CD é o programa para quinta-feira (22), no teatro do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), a partir das 20 horas.

O show reúne os músicos Flaviano Gallo (bateria e vocal); Sergio Canhoto (contrabaixo) e Tito Pereira (teclados e vocal). Juntos, eles apresentam um repertório sofisticado, voltado a diversas tendências e com um princípio fundamental: música de dentro pra fora, lema incorporado pelos membros da banda motivados pela vontade única de tocar o que sempre gostaram de ouvir: MPB, jazz, música clássica, fusion e, é claro, música nordestina.

O repertório inclui desde o folclore brasileiro, até nomes de importância maior para a cultura nacional, como Egberto Gismonti, sempre com uma pitada de Jazz e música instrumental. O CD Ânima Trio traz nove canções assinadas pelo poeta Roberval Pereyr e pelos cantores e compositores Márcio Pazin, Carol Pereyr, Tito Pereira e Alex Macedo. Além das músicas do CD o grupo fará um passeio pela MPB, apresentando canções de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Luiz Gonzaga e Tom Jobim.

Ânima Trio é um projeto artístico que nasce amparado por uma sólida amizade entre seus integrantes. Antes do Ânima eles trabalharam como músicos “free lancer”, acompanhando diversos artistas locais e nacionais, a exemplo de Dominguinhos, Xangai, Valdick Soriano, entre outros. “Esse contato com variadas fontes musicais foi uma grande escola e o som do Ânima Trio é reflexo dessa atmosfera polirritimica que se respira no Brasil”, diz Tito Pereira, acrescentando que isso confere ao grupo uma característica multifacetada e sempre em busca da liberdade de expressão

Com informações da jornalista Socorro Pitombo
Assessoria Cuca/Uefs

http://www.acordacidade.com.br/noticias.asp?id=1052

terça-feira, 13 de outubro de 2009

MEMÓRIA DE UM LUGAR ANTIGO

Perdia-me sempre no branco que a parede comunicava. Lá era meu lugarzinho de todo o dia. Na casa de meus pais, o quartinho era meu vasto mundo; e eu, sua única habitante assustada. As árvores foram desaparecendo à medida que mais um cômodo surgia. No lugar da cana-de-açúcar, uma copa se erguia. A formosa e frutífera amendoeira foi ao chão para salvar o telhado que avançava. Para a festa de debutante de minhas irmãs, mais árvores sumiram ao amanhecer. Minha casa, assim, se é eu posso chamá-la de “minha”, ia ficando cada vez mais concreta, cada vez mais concreto e tijolos e divisões. A cada parede erguida, mais separações. Sempre gostei de paredes... Não quis festa nos meus quinze anos, preferi uma bicicleta. Sua velocidade me tornava invisível e ela me levava para lugares nunca antes por mim visitados, permitia-me experimentar a liberdade, a queda. Ao voltar de minhas aventuras, voltava às paredes, ao branco que me hipnotizava. Era só. Casa cheia, família, parentes, agregados, vizinhos com um quê de hospedes... não parecia com nenhum deles; por mais variados que fossem, com nenhum deles me identificava. Restava-me eu, eu só... só eu e meu quartinho improvisado. Certa vez, desenhei na parede e datei. Isso foi a marca de uma de minhas maiores subversões. Ainda está lá essa prova de meu passado. No quintal, não terra, cimento, e mais um churrasco se acumula. Aumentaram também o número de grades, a sua grossura e seu poder. Antes de tê-las, eram desnecessárias... dormíamos em tranqüilidade. Depois delas, sempre há quem confira, pelo menos, mil vezes se estão devidamente fechadas, trancadas, inacessíveis. Precisamos proteger o patrimônio e nossas vidas. É o que me diziam... Preferia a casa com muro baixo... grades finas que apresentavam seu interior: eram mais enfeites do que prisões. Muitos dizem que preferem a paz de antes. Não sei, paz? Eu e meus pensamentos. Mas, das paredes... delas... eu sempre gostei...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Crônica de Ildásio Tavares



A TURMA DE FEIRA
por Ildásio Tavares


Venho recebendo regularmente,ora de Nivia Vasconcelos, ora de Silvério Duque notícias de uma movimentação cultural no interior, mais especificamente de Feira de Santana, que ombreia em qualidade com os movimentos que possam ocorrer em Salvador. Estes ainda me dão notícia de Lucifrance, exímia declamadora de versos que me brindou com um cd em que interpreta Navio Negreiro de Castro Alves.


O grupo ainda se completa com espetáculos musicais. Decididamente poeta, e poeta sério, do soneto, do verso medido, Silvério também trauteia a clarineta e participa de espetáculos em homenagem aos grandes vultos da Música Popular Brasileira, já houve Vinicius e agora fazem um show de Noel Rosa que sobre ser um painel da música do grande gênio também exerce uma função didática, aviventando nas mentes dos mais jovens a grandeza do nosso passado.musical, do samba do Estácio.


Vejo, pelas imagens que me chegam pela internet que estes shows merecem uma produção cuidada que há a preocupação com o figurino, com o cenário além do repertório cuidado do autor que imagino receber uma execução à altura. Estes espetáculos não são meramente episódicos. Eles se enfileiram há algum tempo, sempre com a correta escolha de uma figura de relevo de nossa música.


Completa o grupo a admirável pintura de Gabriel Ferreira que não conheço pessoalmente, mas que me atrai por sua arte honesta, sem truques nem conceitos em que as imagens são tratadas com esmero artesanal para um final de perfeita solução plástica expressa por uma mão segura de um hábil colorista. Gabriel não se esconde atrás dos modismos tão encontradiços no momento presente. Parte para uma definida vocação de pintar e realiza seu desiderato plasticamente, através de sua habilidade no manejo de pinceladas às vezes vigorosas, mas nunca frouxas, nunca guiadas pelo acaso.


O grupo mexe com um elenco de músicos e de cantoras que passa para mim a idéia de um trabalho, mesmo sem ter tido a oportunidade de escutar a tudo. Não há uma intenção esporádica de um pulo no escuro. Há um trabalho seqüencial que admira quando se pensa na dificuldade de se fazer arte, mormente no interior. A turma de Feira merece nosso aplauso e nosso incentivo. A poesia de Silvério está sempre em progressão, perfeccionando seu decassílabo, burilando seu soneto, forma a que se dedica com afinco.


Nivia Maria, versátil, vertical, com esta seriedade e dedicação que só mesmo as mulheres tem, moureja no conto e no poema.. Já é mestre em Letras, caminha para o doutoramento. Já tive oportunidade de me pronunciar sobre algo que considero essencial na linguagem literária e que Nivia Maria esgrime com perfeição. Refiro-me ao poder de síntese que, no conto, a faz caracterizar o personagem e por extensão a história com poucas palavras. Na poesia ela nada desperdiça, obedecendo a Ezra Pound que afirmava ser a poesia a arte de dizer muito com poucas palavras... E Nivia não é desse poetas inspirados. Por seu conhecimento da técnica, é uma criadora consciente.



Tribuna da Bahia, 05 de outubro de 2009.


domingo, 27 de setembro de 2009

SONETO QUE NÃO QUERIA EXISTIR


LETRA: NÍVIA MARIA VASCONCELLOS
MÚSICA: PAULO AKENATON
VOZ: KARLA DIAS



domingo, 16 de agosto de 2009

MAIS UMA TRADUÇÃO DE PEDRO VIANNA

LA CACHE DE L'AMOUR IV


Te visiter de nouveau

Avec mes yeux de quête,


Et trouver dans l'île de ton rire


Le calme que je ne désire pas :


Contretemps et gâchis de douceur.


Aucun silence ne suffit

À faire taire mon étonnement.


(Ton chant est un opéra que je ne veux pas entendre)


De toi, je ne veux ni ta parole

Ni ton âme usée.


Nívia Maria Vasconcellos in Escondedouro do Amor & Outros Versos sob a Espera* Edições CDL, Feira de Santana (État de Bahia - Brésil), 2008

© Nívea Maria Vasconcellos et Pedro Vianna pour la traduction en français


Confiram em http://poesiepourtous.free.fr/poesiepourtous/poesiepourtous/pomoi04o.htm


EM PORTUGUÊS:


ESCONDEDOURO DO AMOR IV


Visitar-te de novo

Com estes meus olhos de procura,


E achar na ilha do teu riso

A calma que não desejo :


Contratempo e desperdício de doçura.


Para calar o meu espanto,

Nenhum silêncio basta.


(Teu canto é ópera que não quero ouvir)


De ti, não quero a palavra

Nem a alma gasta.

NUM TRAJETO QUALQUER


A chuva apressava os passos daqueles que queriam abrigo, os ônibus eram o destino da maioria desses pés ligeiros. Molhados, munidos de pastas e guarda-chuvas passageiros se espremiam à porta do transporte, o qual, pelo ronco do motor, ameaçava romper o asfalto. Empurrões, cotoveladas e o ônibus ia lotando à medida que todos se acomodavam sentados ou em pé numa rotina humilhante que por ser rotina deixou de ser... humilhante ou, pelo menos, não era percebida assim. Acostuma-se a tudo, o homem, penso com piedade e desdém.

Nem as sinuosas curvas faziam esse “passeio” emocionante... gritos já eram previstos e cansaços eram sentidos por cada corpo que, lançado de um lado ao outro, parecia não ter vontade própria... não, realmente, não tinham vontade própria nenhum daqueles que habitavam tal condução. E as janelas do ônibus apresentavam paisagens já vistas, um panorama já memorizado por todos que, há muito, já lhe eram indiferentes.

A casa tal, a loja tal, a rua tal, o bairro tal... tal era a repetição de imagens que a monotonia tomava conta de todo o veículo. Invariabilidade, constância que para os passageiros eram tédios cotidianos. Nem freios bruscos, aos quais, de alguma forma, seu corpo já havia se habituado, eram capazes de transgredir esse enfado. Até as batidas não assustavam mais a ninguém, faziam parte da normalidade das coisas. Atemorizar-se com isso... besteira!

Todas espécies de gentes que no ônibus estavam eram como uma só: condensada, comprimida. Descer dele era um eterno ultrapassar de obstáculos humanos, expor-se, destacar-se da massa homogeinizada, bradar pelo seu ponto o qual nem sempre era respeitado. A chuva cessou, menos no ônibus que parecia um mar de águas acumuladas. Lamas e pés confundiam-se. Não dava para separar o que era suor do que eram resquícios da chuva. Agonia, tormento, exaustão. O dia continuava a acabar no tempo perdido dentro daquele ônibus. Ninguém vive 24 horas por dia, muito menos os que se vêem obrigados a tomar lotações.

Olhares se estendiam para além das vidraças, encarnavam nos carros que um dia vislumbravam possuir. Cobiça, inveja... simples desejo, compreensível desejo. Semanas e meses se passavam nessa continua uniformidade. Chateação de viver como não se quer. Motoristas e cobradores eram máquinas teimosas de ações repetitivas, automáticas, inumanas... eles, mais que todos, sabiam o significado da palavra fadiga. A dor que sentiam nas costas virara um hábito, quando não doíam geravam surpresa, espanto, admiração. E ao descer do ônibus pareciam permanecer no ônibus.

... O costume é mais forte que o homem.

domingo, 9 de agosto de 2009

MARIANA


Desapareceu Mariana... até desaparecer a própria lembrança de Mariana. E os Domingos sem ela, eram Domingos simplesmente. A sua ausência, em princípio, não ocasionara estranheza, viria no próximo com certeza. Depois, fez suscitar algumas perguntas em vão: Mariana nunca mais veio, cadê Mariana? Indagação vaga para ninguém, que ninguém respondia. Ela sumiu como o primeiro dia de sua visita, de repente. O seu sumiço a fez parecer parte de um passado distante, tão alheio: alguém de quem se ouviu falar, e não alguém com quem se conviveu. Lenda, invenção, história contada para entreter crianças, ilusão coletiva. Não se tinha nenhuma comprovação de suas inspeções, uma foto, uma fita... a falta de provas tornava a sua existência apócrifa e colaborava com o mistério do seu aparecimento abrupto e desaparecimento repentino.


A tarde mal dava seus últimos suspiros, e lá estava Mariana, ao portão, baixinha, encolhida, mas presente, com gestos de quem quer entrar. Dona Mariana chegou!!!! Abre o portão para D. Mariana!!!!!!!! Essa responsabilidade sempre era delegada ao outro: Abre você!!! Abre você!!! Não parecia constrangida por causa disso, insistia no seu pedido silencioso para entrar até que tinha o seu dominical desejo cumprido. Não era apenas crueldade daqueles que hesitavam em abrir o portão, era preguiça mesmo, vontade de não levantar, de não possuir sua vida invadida por uma estranha para quem eles não eram estranhos. Espantosa essa sensação de ser conhecido sem conhecer...


Fazia, sem querer, parte desse estranhamento. Eu era um dos que não levantavam. Minha mãe, a salvadora da família, disposta e receptiva, encarregada de esconder nossa inércia, saía da cozinha para fazer entrar aquela que tinha por único desejo ou promessa ou sina ou fado ou destino mesmo... observar a nossa casa, introduzir-se nela, investigar-lhe cada aposento, espreitar cada uma de nossas ações e, é claro, participar da nossa dominical janta com a televisão gritando ao fundo. Não que ela só fosse a nossa casa, ela visitava outras, meus vizinhos eram também constantemente visitados, esses Domingos, para ela, eram todos uma eterna peregrinação.


Quando nasci, as visitas de D. Mariana já existiam. Quando dei por mim e percebi que aquela imagem que o espelho refletia quando eu o olhava era eu, quando tive consciência de mim, antes! já tinha tido consciência daquela que se fazia presente no seio da minha família. No momento em que já podia andar e entender, fiz questão de não visitá-la, mas de lhe ver a casa. Era próxima a minha; pequenina e encolhida como a dona. Meio abandonada como a dona. Parecia vazia e deteriorada, a casa, não a dona. Mariana apresentava vida nos seus passos calmos e constantes, em suas mãos meio trêmulas e seguras. Seu olhar incompleto repousava sobre cada um. Seu único olho lhe valia, era astuto, esperto, sempre atento, bastava-lhe. Isso lhe oferecia mais mistério e impunha sobre mim uma certa autoridade, procurava nunca encará-la, parecia com um correr risco de não sei o quê. Sempre a olhava de canto... (sempre a percebia a olhar-me de frente). Não lhe tinha simpatia, tinha-lhe respeito. Não sabia se ela gostava de mim, não entenderia o seu gostar. E as visitas se sucediam numa reincidente incógnita. Complicada essa coisa de observar o outro.


De alguma forma, o seu hábito se transformou em nosso hábito que, como todo costume ou vício, prescinde quaisquer explicações. Assim, Domingos sobrevinham e a minha infância era ultrapassada pela inocência que se corrompia e Dona Mariana lá... presenciando todo o meu viver e o dos que me eram próximos como alguém que sabe e não diz... conhece, mas se cala. Não parou por aí, contemplou também a minha adolescência intransigente. Era conhecedora dos caminhos pelos quais já havia passado e dos que pretendia atravessar. Incômodo isso. In-cô-mo-do! Nunca me acostumara... consentia sem concordar... não podia lutar contra a sua mania, e minha família, sem perceber, já fazia parte dela. Distanciava-me cada vez mais de minha casa e Mariana, não! Sempre, ao chegar, olha Dona Mariana ao portão, na rede, à porta, à janela, à... Ela é que agora abria o portão para mim, mas... sem se opor... e iniciava o interrogatório. Maldita educação que me fazia respondê-la sem proferir-lhe nenhuma ofensa ou a maior delas: calar-me. E as semanas continuavam a se passar... pensava: quando conhecia Dona Mariana ela já era do mesmo jeito que naquele momento a via. Pensava, angustiada, que ela sempre fora assim: uma senhora idosa... mas... por que eu não continuei assim... uma criança...??? Refletir dói. Essa reflexão me era terrível. Inexplicável. Perscrutá-la era uma inútil ação. Eu inútil diante disso tudo...


... ... ... Dona Mariana morreu. Há mais de um ano. A voz que proferiu tais palavras também incitou as lembranças que estavam sob a custódia do nosso esquecimento de Mariana. O seu sumiço já havia sido para nós uma morte. Mas sabê-la através das certezas dos fatos foi como um atestado de óbito ( existe para comprovar o que já é sabido ). Contudo, não trouxe nenhum abalo à família que, de tanto recebê-la, não averiguou sua desaparição. Os Domingos com a ausência de Mariana aconteciam, e essa ausência, do mesmo modo que a sua vinda, transformou-se em hábito. Sua carne não mais existia e em poucas vezes alguém ameaçava perguntar por ela, respostas não havia. Seus olhos e ouvidos não mais existiam, e pensávamos que estava a vigiar outras casas. Sua voz não mais interrogava, e continuávamos a viver, não só os Domingos, mas todos os dias da semana. Abandonamo-la muito antes de ela ter nos abandonado e a notícia do seu falecimento revelou a maldade daqueles dos quais eu fazia parte... ... ...


(VASCONCELLOS, Nívia Maria. ... para não suicidar. Feira de Santana: Littera, 2006).


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

I ENCONTRO DE LITERATURA DA UEFS


Euzinha, Ângela Vilma, Mônica Menezes, Renata Belmonte e Eliana Mara, escritoras que formaram a mesa: Confissão e ficção na literatura contemporânea


Euzinha e Ena com suas camisetas artísticas no I Encontro de Literatura da UEFS

Confira: www.enacamisetas.blogspot.com



quarta-feira, 22 de julho de 2009

OUTRA TRADUÇÃO DE PEDRO VIANA

La Cache de l'Amour III

Je m'habille de ton absence

Et chaque distance c'est ton sourire

Et tout souvenir c'est l'impossibilité

De m'avoir, de nouveau, dans ton regard.


Nívia Maria Vasconcellos

in Escondedouro do Amor & Outros Versos sob a Espera*

Edições CDL, Feira de Santana

(État de Bahia - Brésil), 2008

© Nivia Maria Vasconcellos la traduction en français et Pedro Vianna pour


domingo, 12 de julho de 2009

TATUAGEM

Pensava em se tatuar um dia. Pensava nisso há anos, pensava... sentia que seu estilo, seu tipo, seus gostos, tudo em si pedia uma marca, uma tatuagem. Mas a dor, os riscos, o medo. Desistia sempre antes mesmo de se decidir, não se permitia concretizar seu desejo. Antes, não tinha dinheiro; depois, não tinha desenho; faltava-lhe mesmo é coragem. Ia a estúdios, fazia orçamentos, ficava imaginando como se sentiria mais “ela” se tivesse a desejada “tatu”. Mas os meses, ou melhor, os anos de uma epiderme sem a querida marca se somavam. A pele de Amy Winehouse causava-lhe espanto e inveja. Via meninas pela rua cheias de tatus e as achava tão pueris para tê-las... moda, só podia ser por moda. Ela não, sentia-se preparada. No ponto. Não era uma decisão induzida, não seguia tendências que tanto odiava, uma tatuagem para ela era tão necessária para que ela fosse o que era, para comunicar isso. Mas não a tinha. Talvez fosse a voz da mãe que, desde sua infância, falava sem parar: Isso é coisa de ladrão, de gente que não presta, de mulher da vida, de maconheiro, de drogado, de gente que não presta mesmo... Quiçá, o medo de sua mãe pensar que ela fizesse parte dessa lista famigerada tolhesse sua vontade, inibisse sua realização. Não era completa sem a tatuagem, sabia que seu corpo era o lugar perfeito para uma “tatu”. Sofria com aquela ausência.
.
Mas, mas... ... Mas a tatuagem não vinha... e não veio...

Uma adolescência sem tatuagem, uma juventude sem tatuagem... Hoje, pensa que seu corpo já não merece ostentar uma marca tão forte: perdeu seu estilo, seu tipo, mudou seus gostos. Seria ridículo – pensa às vezes – ainda que aquela vontade, apesar de abafada, exista. Culpa das palavras maternas? Para não ser o que a mãe não queria, passou a ser o que não era? Só conseguiu ser igual. Sem nada no corpo que a identificasse ou revelasse, a não ser uma indesejada cicatriz de um acidente antigo, tatuagem é apenas uma linda e lírica música que ela soveja sempre quando triste...

Nívia Maria Vasconcellos

quarta-feira, 24 de junho de 2009

I ENCONTRO LITERÁRIO DA UEFS

Tendo em vista toda a contribuição da literatura na formação da história cultural do Brasil, surgiu em nós o desejo de levar aos estudantes, não apenas desta instituição, mas de outras cidades circunvizinhas, um pouco da leitura das produções literárias na Bahia, que em muito contribuiu e tem contribuído para a manutenção da qualidade da literatura brasileira. Quando nos debruçamos sobre a obra de autores nascidos ou radicados na Bahia, percebemos a qualidade dos textos, que conseguem tratar de temáticas que vão além do regionalismo, conferindo a estes um caráter atemporal, característica de toda boa literatura.
Dessa forma, julgamos pertinente divulgar autores como Adelice Souza, Aleilton Fonseca, Ângela Vilma, Carlos Barbosa, Dênison Padilha Filho, Eliana Mara Chiossi, Elieser César, Gustavo Rios, Katherine Funke, Mayrant Gallo, Mônica Menezes, Nívia Maria Vasconcellos, Renata Belmonte e Wladimir Cazé, que em suas obras têm conseguido projetar a Bahia no cenário literário nacional. Com textos de linguagem fácil e ao mesmo tempo refinada, capazes de despertar a atenção do leitor e, acima de tudo, fazê-lo refletir diante dos assuntos abordados, esses autores trazem uma profunda análise da condição humana, além de possuir uma técnica narrativa inovadora, ao estilo dos grandes escritores contemporâneos.
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Inscrições: D.A de Letras ou por meio do preenchimento da ficha de inscrição que deverá ser enviada para o e-mail: encontroliterariouefs@gmail.com, juntamente com o comprovante de depósito identificado.
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Agência:4109
Operação:013
Conta Poupança:00016744-0
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Informações:
Lidiane Nunes: (75) 8804-9898
Lisiane Matos: (75) 8108-0101

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PROGRAMAÇÃO

MESA 1 (8:30 às 11:00):

Confissão e ficção na literatura contemporânea.

Ângela Vilma
Eliana Mara Chiossi
Mônica Menezes
Nívia Maria Vasconcellos
Renata Belmonte
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MESA 2 (14:00 às 15:30):

A literatura como meio de sobrevivência na sociedade contemporânea é possível?

Aleilton Fonseca
Carlos Barbosa
Elieser Cesar
Mayrant Gallo
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MESA 3 (16:00 às 17:30):

A palavra e o corpo: a literatura como performance.

Adelice Souza
Dênison Padilha Filho
Gustavo Rios
Katherine Funke
Wladimir Cazé
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Recital e Lançamentos de Livros (17:30 às 19:00)

terça-feira, 16 de junho de 2009

ESCONDEDOURO DO AMOR EM FRANCÊS

La Cache de l'Amour I

L'amour n'est pas dans l'étoile
qui, en tombant, emporte le vœu susurré,
il est dans le regard qui la perçoit, et espère.

L'amour n'est pas dans les cartes
jetées sur des tables préparées,
il est dans la tension de qui les écoute, et désire.

Cauris, chiffres et dates
ne contiennent pas l'amour,
il n'est pas dans la quête.

Prières, promesses et cierges
n'apportent pas l'amour,
seul l'espoir de le trouver.

Mais, personne ne trouve l'amour,
il est (mystérieusement) éveillé...
lors d'un moment de distraction et d'abandon.

Nívea Maria Vasconcellos in Escondedouro do Amor &
Outros Versos sob a Espera
* Edições CDL, Feira de Santana (État de Bahia - Brésil), 2008
© Nívea Maria Vasconcellos et Pedro Vianna pour la traduction en français

CONFIRAM EM: http://poesiepourtous.free.fr/poesiepourtous/poesiepourtous/pomoi04.htm

quinta-feira, 11 de junho de 2009

E-MAIL....

Recebi um e-mail hoje que me deixou prenhe de júbilo, quero compartilhá-lo com todos.


Querida poeta. Li seu livro de uma sentada. Ele me agradou por vários motivos, mas principalmente por sua capacidade de manipular o sentimento sob forma de linguagem, sem cair no piegas como muitos que vejo hoje. Você mexe bem com as coisas prosaicas, sabendo-lhes dar seu lugar lírico. E seu verso é enxuto.
Parabéns de um fã sexagenário
Ildásio*

*Ildásio Tavares:

Pertence à geração da Revista da Bahia, com o Cyro de Mattos, Marcos Santarrita, José Carlos Capinam, Ruy Espinheira Filho e vários outros.Nasceu na atual cidade de Congogi, região do cacau da Bahia, em 25 de Janeiro de 1940. Em Salvador, formou-se em Direito e em Letras na UFBA, tendo feito o Mestrado na Southern Illinois University, o Doutorado na UFRJ e um Pós-Doutorado na Universidade de Lisboa.Publicou seu primeiro livro de poesia, Somente um canto, em 1968, e continuou publicando livros de poesia e de prosa (romances, teatro e ensaios). Participou, também, da música popular brasileira, como letrista, em gravações de Maria Bethânia, Alcione, Cláudia, Vinicius e Toquinho, Nelson Gonçalves e Maria Creuza.Foi tradutor e professor de Inglês por quase 20 anos, experiência da qual se serviu em seu livro A arte de traduzir. Sua obra poética é vasta, tendo sido apreciada por nomes expressivos da cultura no Brasil e no exterior. Carlos Nejar o considera “poeta baiano e universal”; Jorge Amado ressalta em Ildásio Tavares sua “unidade de forma e conteúdo pouco habitual em nossa poesia”; Fernando Py assinala ser o poeta “definitivamente dono da técnica de todo tipo de verso”, “para quem a arte poética já não guarda segredos.” (http://www.edicoesgalobranco.com.br/template.php?pagina=/biografias.php&id_autor=77)

terça-feira, 26 de maio de 2009

MAIS "EU SEI QUE VOU TE AMAR"

RELEASE DO ESPÉTÁCULO “EU SEI QUE VOU TE AMAR”

O espetáculo "Eu sei que vou te amar” mostra, de forma elegante e dinâmica, a história de um dos ícones da música popular brasileira: Vinícius de Moraes. O público é encantado com os versos e as músicas do poetinha e se reporta ao ambiente aconchegante do nascimento da bossa nova nos anos 50 até as suas últimas obras.
“Eu sei que vou te amar” teve sua estréia dia 07 de maio de 2009, no aniversário de 47 anos da CDL, e tem recibo, desde então, ótimas críticas por parte da imprensa e do público, que lota o teatro e sai pedindo “bis” ao fim de cada apresentação.

MUSICAL-RECITALData: 30 e 31 de Maio de 2009, às 20hs.
Local: Teatro da CDL (Câmara dos Dirigentes e Lojistas - FSA) Entrada: Inteira: R$ 20,00 – Meia: R$ 10,00FICHA TÉCNICA:
Direção-geral: Marcos PérsicoRoteiro: Marcos Pérsico e Nívia Maria Vasconcellos Atrizes: Nívia Maria Vasconcellos e Lucifrance CastroIntérprete: Karla DiasMúsicos: Paulo Akenaton, Charles Sanctus, Silvério Duque, Flaviano Gallo.

CONTATOS:
Sanção Maia (Produtor) - (75) 3225-9454 / (71) 9171-1689
Karla Dias - (75) 8802-4926
Nívia Maria - (75) 8189-1843

segunda-feira, 11 de maio de 2009

CDL COMEMORANDO



Com o espetáculo teatral “Eu sei que vou te amar”, um tributo as canções eternas de Vinicius de Morais, com direção de Marcos Pérsico, a CDL de Feira de Santana, comemorou seus 47 anos na ultima quinta-feira. Um dos grandes espetáculos que Feira de Santana já pode apresentar. Dava-se a sensação de se estar em pleno Featured Broadway Shows assistindo um grande espetáculo musical, tal era a qualidade dos atores, figurino e canário assinados por Marcus Morais. A peça que é imperdível voltará em cartaz nos próximos dias 15 e 16. O salão se tornou pequeno para as figuras ilustres da sociedade que prestigiaram o grande evento da semana. O movimentado coquetel foi assinado pela famosa Márcia Simões. (Ailton Pitombo)


http://blogs.abril.com.br/ailtonpitombo/2009/05/coluna-social-4545.html

sábado, 2 de maio de 2009

ESPETÁCULO: "EU SEI QUE VOU TE AMAR"





MUSICAL-RECITAL

DIAS 15 e 16 DE MAIO, ÀS 20H, na CDL (Camêra dos Dirigentes Lojistas-FSA)

INTEIRA R$ 20,00 - MEIA R$ 10,00

FICHA TÉCNICA:

DIRETOR: Marcos Pérsico
ATRIZES: Nívia Maria Vasconcellos e Lucifrance Castro
INTÉRPRETE: Karla Dias
MÚSICOS: Paulo Akenaton, Charles Sanctus, Silvério Duque, Flaviano Gallo.


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NÃO PERCAM!!!!!!!!!!!!
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UM POUQUINHO DE VINICIUS PARA VOCÊS:


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POEMA DOS OLHOS DA AMADA

Oh, minha amada
Que os olhos teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus

VINICIUS DE MORAES

sábado, 25 de abril de 2009

quarta-feira, 8 de abril de 2009


Praça de Cordel e Poesia
o grande encontro dos poetas baianos
Por José Inácio Vieira de Melo

Para a Praça de Cordel e Poesia, na 9ª Bienal do Livro da Bahia, foram convidados 101 poetas, um número bastante animador. Artistas da palavra, de várias regiões do estado, desfilarão seus versos durante os 10 dez dias de celebração do livro.
São poetas das mais diversas vertentes. Alguns, célebres, como Maria da Conceição Paranhos, Antonio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho. Outros, estreantes, dando seus primeiros passos, como os editores da revista Entre Aspas: Georgio Rios, Paulo André e Thiago Lins ou os editores da revista Na borda da xícara: Fabrício de Queiroz e Max da Fonseca. Vários deles, ainda inéditos, postando seus poemas em blogs criativos e sonhando com a publicação do primeiro livro, como é o caso de Martha Galrão, Raiça Bonfim, Emanuel Mirdad e Priscila Fernandes.
Os cordelistas vão dar um colorido especial para a Praça, apresentando seus tipos extraordinários, ou ainda, descrevendo as personagens de destaque de sua comunidade com traços bem engraçados. Antonio Barreto, Franklin Maxado e Jotacê Freitas são alguns dos nomes representativos da literatura de cordel que estarão presentes, assim como um expressivo grupo de novos cordelistas da Bahia, sendo Tarcísio Mota um dos mais jovens, com 18 anos. As mulheres também marcarão presença. Maysa Miranda, Creusa Meira e Gilmara Cláudia mostrarão que a força feminina também vigora no cordel.
Além dos cordelistas, a Praça de Cordel e Poesia vai contar com a participação das duplas de repentistas: Paraíba da Viola & Tranquilino e Caboquinho & João Ramos, e da dupla de emboladores Palito & Braz.
Como já foi dito, poetas de várias regiões da Bahia participarão do evento, o que reflete uma das prioridades da Secretaria de Cultura do Estado, que é descentralizar a cultura, ou seja, desconcentrar a atenção das regiões do Recôncavo e Metropolitana de Salvador, e valorizar também as outras 24 regiões da Bahia. Desta maneira, desde poetas das regiões do Baixo Sul e do Litoral Sul até poetas das regiões do Portal do Sertão e do Piemonte Norte do Itapicuru estarão presentes mostrando para o público a força artística proveniente do seu lugar de origem.
E de todos os rincões da Bahia afloraram poetas para participar da Praça: o cordelista José Olívio, do Agreste de Alagoinhas; os poetas Georgio Rios e Inaê Sodré, da Bacia do Jacuípe; Leonam Oliveira e Jussara Midlej, do Médio Rio de Contas; Júlio Lucas, cosmopolita da região de Itaparica; e Edmar Vieira, Vitor Nascimento Sá e Marcelo Nascimento, integrantes do Grupo Concriz, do Vale do Jiquiriçá. O grupo Concriz, proveniente da cidade de Maracás, é um dos destaques da Praça de Cordel e Poesia. Sua força jogralesca e o aprimoramento técnico de seus recitais têm rendido elogios de grandes nomes da literatura baiana, como Florisvaldo Mattos, Roberval Pereyr e Ruy Espinheira Filho.
E mais: Moacir Eduão, da região de Irecê; José Walter Pires, do Sertão Produtivo; Herculano Neto, do Recôncavo; Nívia Maria Vasconcellos, do Portal do Sertão; Antonio Naud Junior, do Litoral Sul; Vânia Melo e vários outros da região Metropolitana de Salvador. Para completar o time, Walter César, poeta beat da Aldeia de Arembepe. E muitos, muitos outros grandes talentos.
A Bahia, berço da poesia brasileira, é acolhedora por natureza. Poetas nascidos em outros Estados encontraram alento no seio da terra de Gregório de Mattos. E aqui aportaram Cleberton Santos e Mônica Menezes, oriundos do Estado de Sergipe; Ivan Maia e Héber Sales, de Pernambuco; Eliana Mara Chiossi, de São Paulo; Fabrícia Miranda, do Rio de Janeiro; Thiago Lins e Nuno Gonçalves, do Ceará. Nomes certos na Praça.
Outro grupo representativo que vai marcar presença no evento é o Poetrix. Criado pelo poeta Goulart Gomes, o movimento espalhou-se pelo mundo afora, tendo hoje mais de 200 mil adeptos. A Praça vai ter onze integrantes do Poetrix, uma verdadeira seleção. Seis dos poetrixtas são de outros estados: Regina Lyra (PB), Lílian Maial (RJ), Marilda Confortin (PR), Hércio Afonso, Pedro Cardoso e Reneu Berni (DF).
Além desta pluralidade de poetas, representantes de todas as regiões territoriais da Bahia, o projeto vai contar com a força cênica do ator Jackson Costa, com a interpretação suave e sensível da bela cantora Carla Visi e com a presença marcante do cantador Sapiranga. Jackson vai recitar poemas de Castro Alves e de Patativa do Assaré. Carla vai interpretar poemas de Cecília Meireles que foram musicados por Raimundo Fagner. Sapiranga vai mostrar o telurismo de suas composições.
A Praça prestará homenagem aos poetas Patativa do Assaré e Antônio Vieira. Patativa, pelo seu centenário de nascimento, e Antônio, artista singular da Bahia, pelo seu falecimento em 10 de junho de 2007. Os dois poetas terão seus poemas recitados ao longo da Bienal. Albert Vieira, filho do poeta baiano, declamará cordéis de seu pai.
Antônio Vieira apregoava que “os nomes dos poetas populares/ deveriam estar na boca do povo”. No grande encontro dos poetas da Bahia, na Praça de Cordel e Poesia, eles serão proferidos em alto e bom som, ecoando por dez dias para mais de 250 mil pessoas ouvirem.

José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e produtor cultural. Curador e coordenador da Praça de Cordel e Poesia.


domingo, 11 de janeiro de 2009

I

O amor não está na estrela
que, ao cair, carrega o pedido sussurrado,
está no olhar que a percebe e espera.

O amor não está nas cartas
lançadas sobre mesas postas,
está na tensão de quem as ouve e deseja.

Búzios, números e datas
não contêm o amor,
ele não está numa procura.

Rezas, promessas e velas
não trazem o amor,
só a esperança de encontrá-lo.

Mas, ninguém encontra o amor,
ele é (misteriosamente) despertado...
num momento de distração e abandono.