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terça-feira, 17 de agosto de 2010

No canto da sala

Uma outra hermenêutica do ser sendo
ou
me deixem quieto no meu canto
a Isaac Lago


Não venho aqui falar do ser-em-si de Heidegger tampouco discutir os conceitos de liberdade sartreanos. Hoje não estou a fim dessas profundidades todas. Hoje sou superfície, epiderme. Que nada de subcutâneo me contamine. Cansei de tormentas e susto. Hoje quero a mansidão do não pensar. Em vez de eu ir da Liberdade à Consciência, quero agora apenas ir da Consciência que me perturba a Liberdade de não tê-la. Não desejo me desprender da filosofia por hora por achá-la inútil, mas por vê-la tão útil. Neste momento, não quero nada que externe utilidade: não quero a poesia, não quero linguagem, não quero o saber. Queria mesmo ser aquela tabula rasa que um certo Locke defendia. Vou escrever o “Ensaio acerca do desentendimento humano” que, como eu, não servirá para absolutamente nada. Não me venham com versinhos de grandes poetas, a mim pouco me importa “o engenho e a arte”. Definitivamente, deu-me uma vontade imensa de queimar meus livros e os escritos principalmente. Não estou a fim de ler ou conversar sobre nada. Acho que ligarei a TV nestante. Ela me ajudará bastante. E, se não der certo, vou dormir. Tomara que nenhum sonho engraçadinho venha com elucubrações. Hoje não estou nem para Dali nem para Rubens. Quero o descanso, a paz que só a ignorância é capaz de dar. Entre a livraria e o parque, prefiro o parque. Eu numa montanha russa só me importando em gritar e em descer dali: mais nada! Não me venham com cappuccinos ou vinhos. Se querem me dar algo que me dêem uma carabina... não! muito grande, uma semi-automática. Pronto. Meu mundo por uma semi-automática. “Cogito, ergo sum”?... À merda, Descartes. Cogito e morro. Fim. Romeu por favor... deixa um pouquinho para mim.... Ai meu Deus... por que eu vim parar neste canto da sala? Nívia Maria Vasconcellos

2 comentários:

dai-ane disse...

"Cogito e morro!"
Lindo texto, poeta!
Câmbio, daqui, deste outro
canto de sala.

Anônimo disse...

vejo cenas conhecidas ...
o escritor nunca consegue fugir das próprias experiencias, né? sempre fica uma poeirinha ou um bocado no eulirico.
belo texto, cronista.